Semana 13

“Não sei… Mas assim, sem o relógio, tudo é mais afastado e misterioso. A noite pertence mais a si própria… Quem sabe se nós poderíamos falar assim se soubéssemos a hora que é?” -A segunda mulher, “O marinheiro” por Fernando Pessoa

Durante as primeiras paginas do palco, “O marinheiro”, três mulheres ficam falando juntas ao lado da cadáver duma jovem. Sabemos pouco delas. Até os nomes ficam desconhecidos para o leitor durante todo o teatro. No momento quando a segunda mulher fala aqui as mulheres discutem a natureza do tempo.Elas estão para contar sobre seu passado, mas a terceira mulher sugere que não adianta porque não há relógio no quarto.

De fato, parece que a tempo nem existe durante todo o teatro. Este ambiente “afastado e misterioso” continua até o final da obra. O tom da peça é extremamente onirico, como se fosse um sonho de Pessoa mesmo. Mesmo sem saber exatamente porque as personagens centrais não têm identidade clara, podemos assumir que foi de propósito. Pessoa estabelece um conto misterioso e infinito. A citação mencionada aqui mostra que o tempo realmente não existe para as mulheres. Elas vivem num mundo onde o passado e o futuro pertencem ao presente. Os sonhos são assim também. A maioria das vezes, estamos conscientes do que está a acontecer, mas perdermos a capacidade de medir o tempo.

Deus também não tem um relógio. Para Ele, todo faz parte dum circulo eterno. Ele sabe de tudo, inclusive o passado e o presente. Por isso a peça tem um sentimento fora deste mundo, como se fosse num estado entre a mortalidade e a morte.

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Conexões Culturais

Festa de Santa Bárbara, Santa da promessa

Cortejo-Santa-Barbara-Patrimonio-IPAC.jpgEsta imagem destaca uma festa de Santa Bárbara bem na frente da Igreja de Santa Bárbara, em Salvador, Bahía. A Igreja de Santa Bárbara serve como o  cenário central da peça, “Pagador de promessas”, escrito por Dias Gomes. Este producto religioso é tão essencial ao teatro porque o protagonista, Zé do Burro tem que entrar nesta mesma igreja, com uma cruz de madeira, para cumprir a promessa que fez com a Santa. A foto foi tirada por Elias Mascarenhas no dia 4 de dezembro de 2008, e se pode encontrá-la no site do IPAC (Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahía). A página se chama “Festa de Santa Bárbara” e explica um pouco sobre a festa (http://www.ipac.ba.gov.br/festa-de-santa-barbara). Mesmo que a foto ilustra um evento e prática cultural, estou a focalizar na igreja mesma e a influência extensa do Catolicismo na Bahía e particularmente no enredo do teatro, “Pagador de promessas”. Ao colocar a igreja no meio da foto e de toda ação da peça, Mascarenhas e Gomes mostram que a tradição Católica penetra cada aspecto da vida do Baiano, muitas vezes sem eles saberem.

Semana 12

“Rosa, você perdeu a cabeça? Não sabe qual é o seu lugar? Discutindo na rua com uma… (Completa a frase com um gesto de desprezo.)”  “Pagador de promessa”, Dias Games, p. 138

Neste momento da peça, nosso protagonista, Zé do Burro fica frustrado com a Rosa porque ela quer ir embora e Zé está determinado para cumprir sua promessa! A Rosa nunca estava preocupada com a promessa, mas agora muito menos. Ela percebe o perigo da situação e quer proteger seu marido. O fato de que ela está preocupada com ele sugere que ela realmente o ama. O mais que ele é burro e obstinado e insensível, ao final do teatro, Rosa reconhece que se importa com ele!

Apesar do amor que Rosa mostra para ele, Zé não presta atenção a sua mulher. Ele tem os olhos fitos na promessa e não consegue ver que sua esposa está ficando mais fiel que nunca. O jeito que Zé trata a Rosa revela a falta de respeito para as mulheres na época em que foi escrito o teatro. Enquanto a sociedade exigia que a mulher obedecesse ao seu marido, os conselhos da mulher não valiam quase nada. Não obstante, se Zé tivesse escutado a sua mulher naquela hora, talvez ele não teria sido matado ao final do teatro!

Semana 11

Zé- “Tendo uma alma tão boa, Nicolau não pode deixar de ser católico. Mas não é por isso que ele não entra na igreja. É porque o vigário não deixa. (Com grande tristeza.) Nicolau teve o azar de nascer burro, de quatro patas.”

-“Pagador de promessas” p. 57, Dias Gomes

Neste momento do teatro, o protagonista, Zé Do Burro, explica ao Padre sobre o seu motivo de levar uma cruz de madeira sete léguas. Zé lhe conta como seu querido amigo Nicolau ficou tão ferido que quase morreu e como Zé estava disposto a fazer qualquer coisa necessária para salvar seu amigo fiel. Assim, o desejo de salvar a vida de Nicolau levou o protagonista a fazer uma promessa coma deusa Iansã, a qual requereu que ele levasse aquela cruz nos seus próprios ombros até a igreja de Santa Barbara.

Quando Zé admite que Nicolau não é humano de verdade… o Padre fica com raiva. Até antes de saber que Nicolau era burro mesmo, o Padre não gostava da promessa que o Zé fez. Ele simplesmente não concorda com o sincretismo que uniu as tradições religiosas da Iansã e as do catolicismo. Não obstante, ou reparar que Nicolau é animal, o Padre prohibe Zé de entrar na igreja e completar sua santa promessa com a deusa.

Eu acho muito interessante que considera o burro bem católico. Para ele o animal tem “alma de gente”. É sensível e tão bom que “não pode deixar de ser católico” mesmo que nunca era católico na realidade. A influência do catolicismo é tão grande para o Zé que ele nem pode imaginar uma “boa alma” sem, pelo menos, vontade de ser católico praticante! Será que nós também seguimos o mesmo pensamento? Podemos analisar o mundo sem as nossas crenças religiosas? Estamos conscientes da influência de nossa religião sobre nossas opiniões? O como Zé Do Burro vivemos cegos das nossas suposições pessoais?

 

 

Semana 10

“‘Quem me dera que fosse aquela loira estrela/ Que arde no eterno azul, como uma eterna vela!'”

“Círculo vicioso” por Machado de Assis

Neste soneto, Machado usa a metáfora de “um simples vagalume” para representar o ser humano. Ao início do poema, a criatura anuncia seu desejo de ser uma estrela. Evidentemente, ele não está satistfeito com a vida que tem, “bailando no ar” na terra. Durante todo o poema, cada sujeito vira para outro, mais brilhante, mais alto. Ninguém fica contento com sua situação atual.

 

Por meio do diálogo, cada sujeito, começando com o vagalume, expressa desejo de ser outra coisa. O vagalume quer ser uma estrela, a estrela quer ser a lua, a lua quer ser o sol, etc. Assim, Machado toca no tema universal de sempre querer ser algo maior. A ambição humana pode ser uma criatura insaciável. O mais que alcançamos, o mais que queremos, e assim o círculo vicioso continua, nos levando a nunca sentir satisfeitos com a vida que temos.

A ironía do poema está no último terceto quando o sol proclama ardentemente que ele quer ser “um simples vagalume”. Acredito eu que Machado quer mostrar aqui que devemos ficar sempre gratos pelo que temos e quem somos hoje porque o perigo da ambição é nunca mais sentir felicidade no momento presente.

Semana 9

“Amor é fogo que arde sem se ver;/ É ferida que dói, e não se sente;/ É um contentamento descontente”

“Amor é fogo que arde sem se ver”, Luís Vaz de Camões

Primeramente vamos considerar algunas das técnicas literarias destes primeros versos do poema. Nos dois quartetos e no primeiro terceto, Machado utiliza uma metáfora para o amor. Campara-o com um fogo, uma ferida, um contentamento descontente, etc. Assim, o poeta pinta uma pintura distinta da emoção universal que é o amor. Ele ilustra plenamente que o amor não é somente uma emoção fofa e romántica, mas que pode ser até um fardo também.

Além disso, Camões usa a anáfora, o a repetição da primeira palavra de cada verso para dar ênfase ao tema do amor que o consuma o narrador. Outra coisa que a anáfora faz neste poema, é mostrar que o amor tem muitos faces. É uma jornada de extremos e tem simplesmente uma maneira certa de descrevê-lo. É uma criatura única que tem uma forma distinta para cada pessoa.

Como o amor, são inumeráveis as emoções que incorporam a experiência humana que “arde[m] sem se ver”. Nunca se sabe quando alguém está levando um fardo pesado assim sem reclamar nem pedir ajuda. Por isso é tão importante tratar ao todo mundo com o maior respeito e generosidade em todo momento!

Semana 8

“Que falta nesta cidade?…… Verdade/ Que mais por sua desonra?…….Honra/ Falta mais que se lhe ponha…….. Vergonha.”

-“Espílogos” por Gregório de Matos

Também conhecido como “A boca do inferno”, o poeta Gregório de Matos era famoso para obras provocantes como aquela registrada aqui. Ele escrevia frequentemente sobre a corrupção do governo e dos com maior poder na sociedade Brasileira. Era advogado do povo que talvez não tivesse voz própria.

Neste poema aqui, Matos fala explicitamente sobre a falta de integridade e da cidade mencionada. A pausa, o reticência ao final de cada verso da maior ênfase à falta daqueles virtudes que uma cidade justa requer. A padrão de deixar um espaço com os pontinhos seguidos por uma palavra se repete durante todo o poema.

A forma e mensagem da obra faz-nos refletir sobre os poderes em nossa vida que estão assumindo controle da vida cotidiana como a corrupção mencionado neste poema tem infiltrado a cidade que falta “….. Verdade”.

 

Semana 7

“Pego de um pau, Esforços faço. Chego/A tocá-lo. Minh’alma se concentra./ Que ventre produziu tão feio parto?!”

-“O morcego”, Augusto dos Anjos

Hoje decidi em enfocar meus pensamentos neste poema não somente porque gostei de seu tema, mas também porque o autor é Nordestino. Foi lá no nordeste do Brasil que servi um ano como missionária e realmente desenvolvi um amor muito grande pelos Brasileiros e sua cultura!

A forma quadrada deste poema indica que é um soneto italiano, com dois quartetos seguidos por dois tercetos. A rima da obra segue o seguinte padrão: ABBA BAAB ABA ABA, e se chama rima cruzada. Além de ser nordestino, este poema me chamou a atenção porque se trata de um tema cotidiano. Como seres humanos, cada um de nós sofre uma luta pessoal com a “Consciência Humana” como o narrador do poema luta com o morcego. As vezes, não queremos ouvir o que nossa consciência quer dizer-nos, até o ponto de não querer reconhecê-la como o narrador. Ele pergunta, “Que ventre produziu tão feio parto?!” como se fosse outra criatura, quando na realidade, ele nasceu do próprio narrador.

Quantas vezes nos encontramos na mesma situação que este narrador, ao lutar com nossa própria “Consciência Humana”? Ao fazer algo de errado, queremos esquecer daquilo sem confrontar as consequências que seguem. A pesar de nossos esforços, elas vêm. Não podemos escapar os efeitos de errar. Não obstante, a ironia, acho eu, existe no fato de que a única maneira de escapá-la é reconhecer que nossos morcegos pessoais fazem parte de nossa identidade. Ao ser honestos assim com nos mesmos, podemos realmente confrontar nossa consciência e continuar para frente sem aquele peso em vez de ficar em medo daquela criatura que nos incomoda pela noite.

Semana 6

“Eu não quis confessar que não estava à altura da eternidade. Que só me dava era aflição. Enquanto isso, eu mastigava obedientemente sem parar.

“Até que não suportei mais, e, atravessando o portão da escola, dei um jeito de o chicle mastigado cair no chão de areia.”

-“Medo da Eternidade”, Clarice Lispector

 

Ao receber uma bala de chicle eterna, a protagonista desta crônica fica bem animada! Ela não consegue imaginar como é possível fazer com que uma bala de chicle dure por toda eternidade. Durante toda a crônica, sua irmã mais velha continua encorajando-a, dizendo que tudo é possível se ela apenas segue mastigando. Um pouco perplexa, a menina obedece a sua irmã até o ponto de o chicle perder seu sabor. Finalmente, a novidade do chicle eterno se torna menos e menos emocionante. Sem sabor, o chicle não é mais do que uma massa sem graça na boca.

Eu acho fascinante esta ideia de ficar aborrecido com a eternidade. Como seres humanos, temos a tendência de querer durar uma eternidade tudo de bom em nossa vida. Nunca queremos que pare algo maravilhoso. Ou pelo menos isto é o que pensamos na hora da alegria. Entretanto, como a menina desta crônica, será que realmente desejamos a eternidade? Será que temos medo de fazer a mesma coisa para sempre? Até a repetição  de uma coisa boa pode tornar-se um fardo depois de algum tempo, como aconteceu com o chicle insuportável.

Para mim esta citação, e de fato, a crônica em geral, também allude à mentalidade de uma pessoa religiosa que só segue sua fé porque é o normal. Como o narrador nos confessa, ela “não quis confessar que não estava à altura da eternidade…” Assim se vê que ela sente as expectativas exteriores, em este caso de sua irmã, para perseguir a ideia da eternidade. Muitas vezes a gente também sente pressão de conformar às crenças religiosas para obter uma meta celestial. Parece que o autor, Lispector, quer mostrar que não devemos ser obedientes somente porque os outros o querem para nós, mas devemos seguir o que acreditamos por nos mesmos, não para agradar a ninguém.

Semana 5

“Ah, já sei: um menino perdido, a chorar de medo. Out talvez um macaquinho perdido, a chorar de medo. Ah apenas um macaquinho, vocês respiram aliviados. Mas quem disse que a dor de um macaquinho é mais justa que a dor de um menino?”

Conto (não conto), Sérgio Sant’Anna

Durante todo o conto desta citação, nunca chegamos a conhecer o narrador. É apenas um narrador heterodiagético, uma voz desconhecida que comenta de fora sobre os eventos do conto. Ou são eventos realmente? Conto (não conto) me parece ser mais uma exploração de pensamentos e ideias do que um verdadeiro conto. Não há clímax obvio, nem personagens principais. Em vez de focalizar nos eventos da história, o narrador fala direitamente para nós, como leitores. Ao princípio, isto é bastante estranho porque não estamos acostumados a interagir com o narrador tanto, mas pouco a pouco chegamos a reconhecer que nossa interacção com o narrador é o ponto central do conto.

Na citação encima, por exemplo, o narrador critica a nossa reacção ao macaquinho sofrido quando ele dirige a sua atenção a nós como a palavra, “vocês”. Assim o narrador mostra que ele é consciente de nós e que ele, de alguma forma, sabe como responderíamos ao animal perdido, “a chorar de medo”. Ao longo do conto, sinto que o narrador está fazer exatamente isto, nos observando e criticando, nos provocando a reconsiderar o que pensamos e por quê vivemos daquele jeito.

Por quê o narrador liga com o macaquinho? Realmente é o animal que vale? O será que o narrador está mais preocupado com a jeito do ser humano de desrespeitar qualquer coisa ou criatura que não é humano. Achamo-nos superiores à naturaleza e até os animais como o macaquinho. Alem disso, o narrador comenta sobre o que importa em geral. O menino e o macaquinho são meramente exemplos escritos para exigir-nos uma reacção emocional. É o que acontece que vale? O que se escreve? O que se acredita? Assim, acredito que o narrador de Conto (não conto) quer dizer que o que importa é como e onde encontramos (o criamos) significado na vida. Assim encontramos “um pouco mais que nada” no meio deste universo tão extenso e incompreensível.